O seleto público que acompanha esta coluna certamente ainda se recorda do episódio que provocou discretos comentários nos melhores salões da cidade.
Foi quando a jovem Alice Flores, herdeira de distinta linhagem felina, surpreendeu familiares e observadores ao abandonar, sem qualquer justificativa plausível, almofadas, mantas e confortos cuidadosamente selecionados para instalar-se, com indisfarçável entusiasmo, numa singela caixa de papelão destinada ao descarte. O episódio foi discretamente comentado nesta coluna em fevereiro deste ano.
Especialistas em comportamento felino-social foram unânimes: tratava-se de um típico arroubo da adolescência.
O tempo, entretanto, esse conselheiro silencioso, parece ter cumprido seu papel.
Chega agora à nossa redação um novo e alentador registro.
Na fria manhã deste mês de junho, Alice aparece entregue aos prazeres da boa convivência, acomodada entre mantas macias ao lado de sua ilustre irmã, Sophia, respeitável dama felina que já soma doze anos de uma trajetória irrepreensível, marcada pela discrição, pela serenidade e pela fidelidade aos seus.
Sophia, diga-se de passagem, ostenta com admirável elegância a rara pelagem que lembra os delicados desenhos de um casco de tartaruga, privilégio quase exclusivo das fêmeas felinas e motivo permanente de admiração entre os entendidos.
Na fotografia que gentilmente chegou à nossa redação, as duas aparecem partilhando o mesmo abrigo contra o frio, numa cena de rara ternura, sem abrir mão, evidentemente, da compostura que delas se espera.
Os mais atentos observadores garantem que Alice continua sendo uma jovem de personalidade marcante. Apenas parece ter descoberto que certas tradições familiares não se estabelecem por acaso.
Quanto às caixas de papelão...
Ao que tudo indica, permanecem definitivamente fora de cogitação.
A sociedade agradece.

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